Em Obrigado por Fumar, Nick Naylor (Aaron Eckhart) é o porta-voz e a total personificação da Academia de Estudos do Tabaco, um grupo defensor das grandes empresas tabagistas. A missão de Naylor não é nada fácil: romper a saudável barreira antitabaco criada pelo mundo e pela crescente geração saúde. Para isso, ele põe a cara na mídia – sem dó nem escrúpulos, assumindo a postura de um verdadeiro popstar do tabaco. Tudo para convencer os EUA (e a si mesmo) que o cigarro não faz tão mal assim, mesmo matando 7.9 milhões de pessoas anualmente.Nick Naylor é o melhor no que faz e é imbatível em qualquer discussão. Informações incontestáveis. Tanto talento assim, aliado a uma imensa paixão por cigarros e dinheiro – não necessariamente nessa ordem, transforma Naylor em uma máquina. Ele sai pelo país espalhando sua venenosa mensagem pró-tabaco. E quando seus argumentos não bastam, ele deixa a elegância de lado (uma vez que a ética não existe) e apela para propinas a vítimas do cigarro e outras maneiras sujas de manipulação.
E assim o filme segue, até surgir Heather Holloway (Katie Holmes), uma sensual repórter que leva Naylor para cama e, lá mesmo, arranca informações confidenciais a respeito da Academia. Os chefes de Naylor, obviamente, não ficam nada felizes e o colocam no olho da rua. Mas, como falamos de uma produção hollywoodiana, tudo acaba dando certo. Nick Naylor deixa o mundo do tabaco e começa a prestar consultoria para grandes conglomerados, ensinando-os a fazer o que ele mais sabe: manipular e convencer. A ética de Naylor continua perdida por aí, mas isso não importa. O que o filme propõe, é que encontremos a nossa.
Obrigado por Fumar não é exatamente só mais uma ficção. O filme é um questionamento sem fim. Mais que uma alfinetada, ele é uma injeção anti-rábica no universo da opinião pública (o nosso universo, por sinal). Até que ponto nós, como telespectadores, somos manipuláveis? Até que ponto nós, como comunicadores, somos manipuladores? Uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade? Temos um imenso poder nas mãos, mas o que será feito com ele varia de acordo com o caráter. O filme é uma aula.
A mensagem que transmitimos importa sim, e muito. Agora, para realmente alinharmos os interesses empresariais a interesses pessoais, é preciso transmiti-la da maneira correta e, acima de tudo, pelos meios corretos. Nossos públicos estão em todo lugar, compostos por pequenos grupos. Cada um com sua peculiaridade, com seus anseios. Atender a todos é praticamente impossível, mas atingir e satisfazer ao menos 90% deles é o mínimo exigido de nós.
Outro ponto interessante levantado do filme: não há lugar para a utopia, figurinha tão presente nas gélidas cadeiras das universidades de comunicação. Não há bondade integral; não há empresas realmente preocupadas com o meio ambiente; não há interesses inteiramente dirigidos à comunidade desprivilegiada. A verdade (que está lá fora) não é o que é transmitido para nós ao longo da graduação. E ninguém precisa de uma língua afiada, um rostinho bonito e um confortável terno Armani para saber disso. Basta manter os olhos abertos. No fim das contas, o que importa é o que todos fazemos com o que nos é fornecido e oferecido. E, como diria Nick Naylor: “Michael Jordan plays ball, Charles Manson kills people, I talk. Everyone has a talent”.
PS: Taí um trabalho de faculdade que eu gostei de fazer. Sei lá que nota vou tirar, mas pelo menos consegui escrever com um pouco (o mínimo, pelo menos) de liberdade.


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