quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pelos, por que tê-los?

Antônio sempre foi um cara simples, de classe média-baixa. Sem mais, nem menos. Praticamente o estereótipo hollywoodiano da mediocridade americana. Funcionário público desde que se entendia por gente, no seu setor todos o consideravam um cidadão simpático, boa pessoa. Antônio não fedia, nem cheirava. E em casa a história era a mesma. Ele sempre foi um bom pai e um marido atencioso. Mas ficava por aí, sem maiores surpresas e enaltecimentos por parte dos seus estimados familiares.

Como de praxe, todas os dias Antônio seguia seu ritual. Levantava-se ao cantar do galo, tomava um banho frio, dava cabo da barba ainda rala, passava o pente nos cabelos já falhos, tomava um café forte, observava silenciosamente suas filhas dormirem por um minuto, beijava o rosto sonado de sua mulher, entrava no Santana 94 e saia tranquilamente pela Braz Leme. Até o trabalho eram pouco mais de oito quilômetros, apreciados ao som do mesmo jornal, da mesma rádio AM.

Mas não naquele dia. Não naquela manhã.

Especificamente naquela quarta-feira, as coisas mudaram. Antônio se levantou quinze minutos atrasado em meio a resmungões e palavras de baixo calão, trocou o banho por uma água no rosto e dois tapas na cara, deixou a barba por fazer e o cabelo por pentear, deu um gole desmerecedor no café e cuspiu fora, passou espalhafatosamente batido pelo quarto das filhas, deu um tchau de longe e pela metade para mulher e, batendo o pé, entrou no Santana.

E lá ficou, por longos três minutos, em meio a devaneios aparentemente intermináveis. Só Antônio sabia o que estava passando e conhecia o martírio que era ser o que é. Ali, beirando os cinquenta anos, sem ter levado adiante o jovem sonho de ser poeta, sem ter conhecido seus maiores ídolos, sem ter sido um homem para sempre lembrado. Só Antônio sabia qual desses vários motivos era o responsável pela sua angústia. Só Antônio.

Até que, já cansado do marasmo daquela quarta-feira, concluiu consigo mesmo “Maldito pelo encravado que acaba com o meu dia”, ligou o velho Santana e foi-se pela Braz Leme. Nada como um dia após o outro.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Cidade pequena, coração imenso.

Dia desses, em um passeio descompromissado pelo Taubaté Shopping, percebi o quanto os corredores estavam apertados, mesmo depois de todas aquelas obras. Parecia que ali todo mundo se encontrava, se conhecia, se cumprimentava. E tudo no mesmo lugar, igualzinho àqueles comerciais de fim de ano da Rede Globo. Intrigante, para dizer o mínimo. “O que tá acontecendo aqui?” – pensei. Felizmente, a resposta surgiu tão inesperadamente quanto a questão: acontece que, a cada dia que passa, mais e mais pessoas compartilham dessas voltinhas (descompromissadas ou não) comigo e com você, querido leitor.

“Nossa, taí! Agora eu entendi!” – constatei satisfeito – “Esse é o tal espírito de cidade pequena”. Epa, calma lá! Antes que você me entenda errado, deixe eu me explicar: é pequena de tamanho, sim senhor, mas não de coração. Afinal, Taubaté é uma daquelas cidades onde sempre tem espaço para novas caras e histórias. É onde vizinhos ainda são vizinhos e não “os que moram ao lado”. É onde você não ouve falar sobre diversidade, e sim a vê em cada esquina. Disso tudo ninguém duvida, porque, na verdade, Taubaté é ainda mais. Com muito orgulho.

Agora, já que o assunto é diversidade e shopping, você, enquanto passeava pelas vitrines, já parou e deu uma olhada ao seu redor? É engraçado como as diferenças são sempre iguais. Tem o casalzinho apaixonado, o casal amigo de outro casal, o pai babão, a mãe que mima, o senhorzinho, a senhorinha, o aluno fazendo uma horinha, o aluno matando aula, o apressado com trinta minutos para almoçar, o cansado colado no banquinho, os amigos que tomam chope, as amigas que fazem compras, os que estão comemorando, as que estão fofocando. Isso sem contar o pessoal do boliche, a turma do fliperama e a galera do cinema, fã de filmes repetidos.

É estranho, não é? Pra não dizer incrível. Como é que uma cidadezinha de interior, como adoram frisar aqueles que vêm da (ou vão à) capital, teve a coragem de abraçar tantos rostos, sorrisos e olhares diferentes? Tente entender. Ou, se preferir, pegue a Nove de Julho e saia por aí sem compromisso. Vá de carro, de ônibus ou a pé. Tanto faz, mas vá. Eu garanto que tudo fará mais sentido, inclusive o amor que você sente por aqui. E se isso não ajudar, não se preocupe. Lembre-se que, aqui, a festa é sua, nossa, de quem quiser e até mesmo de quem vier, todos os dias.